Domingo, 29 de Abril de 2007

Os pontos nos "ii"



O meu herói de Abril

O 25 de Abril era uma grande festa lá em casa quando eu era pequena. Na véspera comprávamos cravos vermelhos (sim, porque eles não são encarnados, meus senhores, são VERMELHOS) para pôr em todos os jarros da casa. À meia-noite abria-se espumante. Mas a essa parte eu não assistia… Do que eu gostava mesmo era de ir passear com o meu Pai para a Av. da Liberdade, ver o desfile. Às cavalitas dele, eu era enorme! E ficava-me bem o cravo no cabelo, ou pelo menos eu achava que sim.

Mas o melhor do 25 de Abril era a parte da história. Quando chegávamos a casa, depois do banho que a Mãe insistia que tomássemos porque tínhamos andado ao sol o dia todo, eu pedia a história do 25 de Abril. Então o meu Pai sentava-me no seu colo, no sofá da sala, e contava-me a história do 25 de Abril e de como ele tinha feito parte desse dia e dos que o antecederam. A história era todos os anos igual, tal como os restantes rituais do feriado, mas acho que é disso mesmo que as crianças gostam – de rituais. Eu sentava-me e ouvia embevecida, como se fosse a primeira vez, tudo o que o meu Pai me contava e, se ele saltava algum pormenor, protestava veementemente. Ele era obrigado a voltar atrás, embora lá fosse dizendo “Mas se tu já sabes, porquê voltar atrás?”. Não interessava. As histórias têm de ser contadas como deve ser.

Aos meus olhos pequenos de criança, o meu Pai era Abril. Tinha estado com Salgueiro Maia na madrugada de 25, com os locutores da rádio que deram a senha, com os soldados nos tanques, com as vendedeiras da Praça da Ribeira a distribuir cravos pelos soldados, com o povo no Largo do Carmo, com os presos em Caxias. O meu Pai tinha estado em todo o lado. O meu Pai era Abril. Tanto assim, que só recentemente descobri que quem foi libertado de Caxias na manhã de 26 não foi ele mas o seu amigo Tengarrinha, que havia de se casar com a prima Lena. E como ao longo dos anos uma parte destes rituais se foi perdendo, as coisas acabaram por se misturar na minha memória. Este foi o primeiro ano em que efectivamente desci a Avenida, com o NES – se calhar é porque já sou muito crescida para ficar a assistir às cavalitas do meu Pai… Quando cheguei a casa tornei a sentar-me ao colo do Pai e a pedir a história do 25 de Abril. Para repor alguma coerência às minhas memórias de infância. Às vezes também faz falta algum rigor histórico… Mas isto depois do banho, claro.

Antes do 25 de Abril ele era comunista e lia “O Capital” nos transportes públicos, com a capa forrada de papel creme. No apartamento alugado em que ele vivia com amigos de Angola havia uma enorme máquina de composição, que era utilizada para imprimir panfletos e jornais da UEC (União de Estudantes Comunistas). Como a máquina era muito barulhenta, de cada vez que era necessário utilizá-la alguém tinha de aspirar a casa para abafar o ruído. Um dia, a vizinha de baixo disse em tom de graça que a casa devia ser a mais limpinha do prédio, com tanta aspiração. Teria ela percebido o que se passava? Era necessário verem-se livres da máquina porque ela podia muito bem ser informadora da PIDE. E pronto, lá foi a máquina num 4L até Cascais, de madrugada, onde foi arremessada pela Boca do Inferno. Alguns meses depois vieram a descobrir que a pobre senhora até tinha o marido preso em Caxias, mas o seguro morreu de velho...

O meu Pai passou também uma noite na sede da PIDE. Provavelmente porque algum camarada o tinha denunciado sob tortura, nunca o soube ao certo. Ficou várias horas de pé, sem se poder encostar para descansar. Depois sentaram-no numa cadeira e apontaram-lhe uma luz muito forte aos olhos, enquanto lhe berravam: “Nomes, queremos nomes!”. Ele não dizia absolutamente nada e isso devia irritá-los. No preciso momento em que um dos inspectores decidiu que era altura de passarem a métodos mais drásticos, entrou um homem que cumprimentou o meu Pai entusiasticamente. Tinha trabalhado com o meu Avô no caminho-de-ferro de Benguela e assegurou que o meu Pai era bom moço, que aquilo devia ser tudo um grande equívoco e que o deixassem ir, à sua responsabilidade. Nesse dia, o meu Pai ganhou a liberdade e perdeu um amigo. O Sr. Alípio (nome fictício, evidentemente) na PIDE? Quem diria…

Houve também um dia em que foi preciso fazer carimbos novos para a UEC e a tarefa coube ao meu Pai. Mas não se entra por uma loja adentro a pedir carimbos que digam “União de Estudantes Comunistas” ou que tenham siglas suspeitas, assim sem mais. Por isso, ele procurou na lista telefónica alguma coisa que o pudesse ajudar. Encontrou a União Eléctrica de Cascais. Mandou fazer seis carimbos com a sigla UEC e seis outros com o nome da tal corporação. Safou-se.

No dia 25 de Abril, afinal de contas, é que não fez nada de tão especial... Não saiu de Santarém com Salgueiro Maia, não esteve na rádio nem foi sequer ao Largo do Carmo. Ficou em casa, a ouvir tudo pela rádio, como pedia o MFA...
publicado por NES-FDL às 16:19
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1 comentário:
De Fábio Raposo a 1 de Maio de 2007 às 12:36
Tal como o teu pai, há vários outros heróis de Abril que acabam por ser esquecidos. Hoje o 25 de Abril serve apenas para fazer reivindicações.
O pior ainda é que, tal como o teu pai, há vários outros homens e mulheres que foram ameaçados pela PIDE. E nem todos tiveram a sorte de conhecer o Sr Alipio.
Um beijo.

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