Sexta-feira, 4 de Maio de 2007

Os pontos nos "ii"




Um crachá no verdadeiro sentido do termo...



Andei meses a hesitar sobre se devia ou não escrever sobre isto. Hoje decidi dar o grito do Ipiranga! Alguém disse que não há pior censura do que a auto-censura…

Talvez já tenham reparado, ao passear pelos corredores da nossa Faculdade, que uma colega exibe todos os dias um ostensivo crachá que tem escrito em letras garrafais “Eu sou heterossexual”. Da primeira vez que me cruzei com ela tive de voltar atrás e refazer os meus passos para me certificar de que não estava a alucinar… E não estava mesmo. Nem dessa vez nem de todas as outras vezes que a vi.

Ora bem. Quando me apercebi de que aquilo era um hábito quotidiano da colega, e ultrapassada a minha perplexidade inicial, resolvi perguntar-lhe o porquê do adorno. Seguiu-se um grande (e oco) discurso sobre a liberdade de expressão, os direitos fundamentais aos saltos e os direitos fundamentais aos pinotes…

Aquilo fez-me imediatamente lembrar os cartoons de Maomé, que tanta polémica geraram. Parece que na altura ninguém percebeu (ou ninguém quis perceber) o sentido das declarações do Prof. Freitas do Amaral. Mas ele era tão simples quanto isto: a liberdade de expressão, como qualquer outro direito fundamental, não é um direito absoluto – está limitado pelo princípio da proporcionalidade, nas suas três vertentes. Releva particularmente neste ponto a vertente de necessidade ou de proibição do excesso.

Creio que também neste caso do crachá há um claro excesso. Não me parece que haja grande necessidade de nos esfregar na cara, todos os dias e a todas as horas, a sua orientação sexual… E a este propósito, parece-me sugestiva a origem da palavra crachá. Ela vem do francês crachat, que significa à letra “escarro”. Passou a ter também o sentido de emblema ou insígnia aquando da Revolução Francesa, pela mão dos sans-culottes, como forma depreciativa de designar o distintivo dos militares do Antigo Regime. Parece-me, pois, verdadeiramente apropriado que a dita mensagem se encontre inscrita num crachá... Porque é isso mesmo que a colega faz todos os dias: escarrar-nos na cara a sua orientação sexual!

Mas mais do que por ser um atentado ao meu direito de estar sossegada no meu canto, na mais completa ignorância acerca da orientação sexual da colega, aquele crachá enerva-me porque é uma forma velada de homofobia. Traz ínsita a ideia perniciosa de que os homossexuais “estão a tomar conta disto tudo”, qual praga, e de que é necessário que os heterossexuais se unam contra uma ameaça à sociedade tal como a conhecemos. Aquele crachá é quase uma diatribe: “Heterossexuais de todos os países, uni-vos!”. Ao menos o colega da Iuris Graphia, honra lhe seja feita, expressou toda a sua homofobia directamente, sem rodeios…

Um dia hei-de voltar a conversar com ela sobre isto. Sobre o art. 13º CRP e sobre aquilo que julgo ser a inconstitucionalidade da proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E hei-de dizer-lhe também que se o mundo tal como o conhecemos que ela julga ameaçado é este estado de coisas em que os homossexuais são tratados como cidadãos de segunda, então, no que depender de mim e de outros como eu, camaradas, esse mundo está mesmo muito seriamente ameaçado!
publicado por NES-FDL às 00:26
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3 comentários:
De Fábio Raposo a 4 de Maio de 2007 às 16:08
Não tens que pedir desculpa, Vitor. E não foi "seca" nenhuma, apreciei muito o que escreveste.

Sê bem-vindo!!

Saudações esquerdistas!
De Anónimo a 4 de Maio de 2007 às 03:23
Sem querer estar a intrometer me mas desde já a faze-lo deixem me dar os parabens a todos quanto tornam possivel um blog com a qualidade deste e por ventura um NES com elevada qualidade tambem ele. Desde ha muito tempo que leio atentamente o blog algumas vezes concordando outras nem por isso. Tive varios anos ligado de uma ou de outra forma á JS mas por razoes pessoais deixei de o estar e este ano com a entrada na FDL deparei me na turma com o Tiago Gonçalves que aos poucos me foi falando e apelando para a minha entrada para o NES, eu proprio ja tenho a inscriçao redigida só nao a entreguei pois nao seria honesto para comigo e com o NES dado a minha falta de tempo até agora. Com este tempo passado posso agora sim fazer chegar as maos de quem de direito essa inscriçao e "trabalhar" por alguma coisa quanto mais nao seja por um ideal por muito utópico que ele seja, e no meu ver mesmo que seja utópico qualquer ideal deve ser alvo de uma luta rude e insistente porque só assim podemos ganhar com glória mas mais do que isso perder com HONRA.

Terminada esta "pequena" introdução passo a comentar se me é permitido o texto da "colega". A afirmação de vários ideiais infelizmente hoje em dia, e com a banalização do direito ás mais diversas formas de liberdade, tem se mostrado muito rude e até violenta. Quero com isto dizer que a forma de passarmos as nossas ideias e as nossas opçoes neste caso são um pouco desprovidas de classe e até de alguma falta de elegãncia se me é permitido usar o termo. O facto dessa "colega" usar e abusar do crachat que ostenta tao alegremente como no texto explica a autora, nao é de todo uma forma errada de actuar, porém poderá parecer ofensivo ostenta-lo demasiadas veses. No entanto nao me parece de todo uma forma errada mesmo que em demasia o uso do mesmo mas pertinente sim são as questões que a autora do texto colocou quando confrontada com esta situação que para ela será de alguma falta de respeito até e sem duvida que pelo prisma dela será mais ainda um ataque a liberdade apergoada pela possuidora do crachat.
A verdade é só uma, neste mundo e na "nossa" democracia (demagógica) cada vez mais o uso a campanhas de choque sejam elas pelo conteudo ou até mesmo pela perpétuação no tempo, sao cada vez mais frequentes passando-se assim para trás o debate, a saudavel troca de ideias, as liberdades de cada um se expressar nas suas mais variadas ideias(desde que a sua liberdade de se expressar nao ultrapasse a liberdade de outros nao querem ouvir), ou seja ultrpassa-se tudo aquilo que numa democracia é fundamental.


Desculpem a intromissão e a "seca" que causei, claro a quem ler o comentário.

Vitor Simão
De Fábio Raposo a 4 de Maio de 2007 às 00:50
Ainda que concordando com o que escreveste, aquele crachá não me diz nada. Não consegue ter impacto, nem significado. É apenas uma ideia que uma pessoa faz mostrar num simbolo pequeno que traz junto à roupa.

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